sábado, 25 de outubro de 2008

O pesadelo e o sonho

Vivemos em um meio um tanto surreal! Sonhamos com todos os aspectos de felicidades (para nós, é claro) nos quais nossa vida pode se realizar e deixamo-nos levar pela solícita impressão de que seremos ou realizaremos aqueles sonhos!

Qualquer desvencilhar de nossos sonhos são chamados pesadelos. Aqueles momentos em que a “força” parece nublar e há uma falha em nossas perspectivas. Uma quebra dos céus sem nuvens no qual vivemos. Um desvirtuar momentâneo de nossas expectativas e planos. Um vago e indelével sentimento de impotência frente ao desabar de nossos desejos. É o amargo pesadelo!!! O desconforto maldito de não realizações. De tarefas irrealizadas e vontades banalmente quebradas. De desvio inatural da realidade factível para um quarto obscuro e sombrio de imprevisões. Ele se manifesta!!!

E qual mortal que se diz imune aos pesadelos? Aos contratempos de suas vidas e sonhos??! De um amargo remorso de algo feito e não mais recuperável?

São esses pesadelos que permeiam nossas vidas e nos moldam. Nos fazem zumbis de uma felicidade inóspita onde o convencional reflete o necessário e bendito fim, mas o fim nos vassala com seu destempero e amargor. Das certezas desses carbonos estelares que nos formam, uma é a etérea finitude e outra o intrínseco sofrer. Nascemos com o sorriso estampado da derrota e nos vemos no fulgor das lágrimas esculpidas, famigerando por faces ambíguas, devoradas por futuros inconclusos. Permeamos vastos oceanos de dor, martírio de momentos infindados e amores inacabados. Somos prisioneiros de nossos pesadelos, os quais nos são caros e dolorosos, incorruptíveis e eternos. Álea jacta est! E perdemos feio!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Réquiem do observador

Me desapego a tudo, mas me comove o mundo. São espasmos de violência e descaso com cada um de nós que as palavras me vêem aos borbotões, incoerentes, dominando o silêncio em minha estupefação.

As imagens são fortes e não há mais lirismo nelas... apenas observo, absorto.

Me parece que o peso etéreo do tempo sobre meus ombros não me concedeu sabedoria para captar o que ocorre à minha volta. Então, tento de uma forma carnívora, destrinchar às garfadas essa tela lúgubre que me assalta os sentidos: não mudou o mundo. O homem mudou, e para pior!

O imolar incessante de vidas alheias, que são exatamente isso: vidas alheias! Não nos atinge mais o impacto da revolta e da repudia. Estamos, realmente, nos conformando à nossa natureza animal e nos distanciando do divino.

Me atrevo a observar, e, como observador, isolar-me dos fatos.

Vejo jovens degolados e uma audiência sombria de desprezo pela vida perdida. Jovens atrelados às suas posses, alienados pelo que possuem, dividindo a crueza de sua inveja aos que ainda não têm. Olhos soberbos de ganância e mentes infladas de desejos obscenos, obscuros. Vejo sombras e o umbral se fechando sobre essas vidas, prometendo um fim escarlate de adrenalina e brevidade.

A quem deixar meu réquiem? A quem entregar o périplo incircunciso da curiosidade inata? A quem deixar o mundo, se do mundo nada mais resta?

Sento-me sobre a rocha e observo o langor do tempo perpassar pelas vidas indolentes.